sábado, 11 de fevereiro de 2012

Zumbis


Zumbi – Ser muito popular no Brasil, herdado dos africanos:
Entre os angolenses, gente que morreu, alma do outro mundo.
Na tradição oral de muitas nações africanas, fantasma, Diabo, que anda de noite pelas ruas; e quando os negros vêem uma pessoa astuciosa que se mete em empresas arriscadas, dizem: “Zumbí anda com ele”, isto é, o Diabo anda metido no corpo dele.
No Rio de Janeiro intimidavam-se muitas pessoas com o Zumbi de Meia-Noite, espectro que vagava alta noite pelas ruas.
Câmara Cascudo ainda, muito elegantemente, nos brinda com um estudo epistemológico através das palavras do Sr. Dr. Macedo Soares em seu artigo “Sobre algumas palavras africanas introduzidas no português que se fala no Brasil” (Revista Brasileira, IV. 1880, página 269) em que Zumbi é voz com que as amas negras amedrontam às crianças choronas: olha o Zumbi! Outros dizem: Olha o Bicho! e acrescenta: Serão sinônimos? Será o Papão português? Parece.
Acresçamos a essa interpretação de nacionalidade Afro-Latino-Americana algumas definições retiradas do verbete Zumbi, dessa vez no Dicionário do Folclore Brasileiro, ainda de Câmara Cascudo:
Zumbi. Vem do quimbundo nzumbi, espectro, duende, fantasma. Confunde-se com o seu homófono Zumbi, provindo de nzámbi, divindade, potestade divina e, por translação, aos chefes sociais,m’ganga Zumbi, dizem os negros cabindas, referindo-se a Deus. Zumbi foi o título de chefe dos rebelados pretos que se refugiaram no quilombo dos Palmares, na serra da Barriga, em Alagoas, a “Tróia Negra” de Nina Rodrigues.” (…)
“Há vagamente uma tradição de um Zumbi retraído, misterioso, taciturno, saindo apenas à noite, referido por Nina Rodrigues. Nesta acepção é a nota de Pereira da Costa comentando a frase estar feito zumbi, com insônia, velando, vagando durante a noite.”
E ainda:
“O Zumbi no Haiti (Zombie) é um cadáver animado por força mágica e obrigado a trabalhar para o encantador. Insensíveis, alimentados parcamente, terão a penitência finda se provarem o sal.”
Temos disso que, independente dos mortos vagarem por todas – absolutamente todas – as cidades do mundo, no Brasil há uma identificação folclórica herdada provavelmente de raízes africanas.
O que nos conduz a uma intensificação ainda mais delicada do neo-mito, e finalmente, pisando em ovos, escorregando em sangue coagulado, e sussurrando nervosamente para não despertar os mortos inquietos, somos levados a discutir uma camada mais profunda desse consumo ilustrado por Romero: a escravidão. Seu uso moderno foi evocado da exploração racial, o domínio étnico. Dominação em massa pela violência. Destruição sumária de toda uma multiplicidade de cosmogonias e universos teológicos. O holocausto da fé começou quando os primeiros povos africanos, indígenas, aborígenes foram colonizados pela primeira vez; e segue até hoje porque, ainda, mais fé continua nascendo.
Outro estudioso-guia pode nos oferecer auxílio e companhia nessa indigesta e antropofágica interpretação neomitosófica: Wade Davis. Mas para tanto, seria necessário retomar a história do local que pode ser considerado, definitivamente, a Meca dos Morto-Vivos: o Haiti.
Os índios arauaquestaínos e os caraíbas foram os primeiros seres-humanos a pisar nessa ilha, denominada então como Quisqueya, na ocasião em que nela chegaram, há mais de 7000 anos. Mais tarde, em 5 de dezembro de 1492Cristóvão Colombo chegou a uma grande ilha, à qual deu o nome de Hispaniola. Pouco depois passou a ser chamada de São Domingos pelos franceses. Dividida entre dois países, a República Dominicana e o Haiti, é a segunda maior ilha das Grandes Antilhas. Após a visita de Cristóvão Colombo, em 1492, o processo colonizador se iniciou. No fim do século XVI, quase toda a população nativa havia desaparecido, escravizada ou morta pelos conquistadores.
Após uma revolta de escravos da qual nenhum branco escapou vivo, em 1794, o Haiti tornou-se o primeiro país do mundo a abolir a escravidão. Nesse mesmo ano, a França passou a dominar toda a ilha. Em 1801, o ex-escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses. O líder Jean Jacques Dessalines organizou o exército e derrotou os franceses em 1803. No ano seguinte, foi declarada a independência, promovendo o Haiti ao posto de segundo país a se tornar independente nas Américas. Como forma de retaliação, em 1804, os escravistas europeus e estadunidenses mantiveram o Haiti sob bloqueio comercial por 60 anos.
Da segunda metade do século XIX ao começo do século XX, 20 governantes sucederam-se no poder. Desses, 16 foram depostos ou assassinados. Tropas dos Estados Unidos da América ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país. Em 1946, foi eleito um presidente negro, Dusmarsais Estimé para então, após a derrubada de mais duas administrações governamentais, o médico François Duvalier ser eleito presidente em 1957. François Duvalier ficou conhecido como Papa Doc, apoiado pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, instaurou uma feroz ditadura, baseada no terror policial dos tontons macoutes(bichos-papões) – sua guarda pessoal – e na exploração do vodu. Presidente vitalício, a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição e perseguiu a Igreja Católica. Papa Doc morreu em 1971 e foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, conhecido como Baby Doc. Entretanto a ditadura do bebê Doc, como qualquer ditadura, não pode sustentar-se indefinidamente. A opressão e a violência cada vez mais despertavam revolta e indignação no povo haitiano. Em 1986, Baby Doc decretou estado de sítio. Os protestos populares se intensificaram e ele fugiu com a família para a França, deixando em seu lugar o General Henri Namphy. Eleições foram convocadas e Leslie Manigat foi eleito, em pleito caracterizado por grande abstenção.
E foi nesse contexto histórico que Wade Davis, um etnobotânico canadense, desembarcou em Porto Príncipe, em 1982 a pedido do Dr. Nathan S. Kline, que havia elaborado a teoria de que uma droga podia ser responsável pelas experiências supostamente comprovadas de zumbis. Uma vez que tal droga poderia ser usada medicinalmente no campo da anestesiologia, Kline esperava reunir amostras, analisá-las e determinar se e como funcionavam. Davis observou que os haitianos que acreditavam em zumbis também acreditavam que eles eram criados pela feitiçaria de um sacerdote (e não por um veneno ou uma droga).  Segundo a sabedoria local, o sacerdote pega o ti bon ange da vítima, ou seja, a sua alma, para transformá-la em zumbi; mas durante sua pesquisa, Davis descobriu que o sacerdote usava pós elaborados, feitos de plantas secas e partes de animais em seus rituais. Davis reuniu oito amostras desse pó em quatro regiões do Haiti e, como resultado de suas investigações, afirmou que uma pessoa viva pode ser transformada em um zumbi injetando-se duas substâncias específicas na sua corrente sanguínea (geralmente através de uma ferida): A primeira, chamada pelos nativos de “coup de poudre” (do francês: tiro de pó), inclui a tetrodotoxina (TTX), uma poderosa neurotoxina e freqüentemente fatal encontrada na carne do baiacu (ordem Tetraodontidae). A segunda consiste numa poção com drogas dissociativas tais como a datura. Acredita-se que estas substâncias associadas induzem um estado de morte no qual ficam inteiramente sujeitas às vontades do bokor (o sacerdote vodu responsável pelo preparo e uso da poção). Davis também popularizou a história de Clairvius Narcisse, que alegou ter sucumbido a essa prática e “vivido” como um morto-vivo por muitos anos.
De acordo com a teoria de Davis, o pó, quando aplicado, primeiramente irritava e rachava a pele da vítima, para então a tetrodotoxina adentrar a corrente sangüínea, paralisando a vítima e causando sua morte aparente. A família enterraria a vítima e o sacerdote retiraria o corpo do túmulo. As investigações de Davis ainda apontam para o quão comum era que uma pessoa envenenada pelo pó recuperasse a consciência no caixão ou logo depois de ter sido retirada de lá. O trauma e a violência psicológica contidos nesse processo de vivência da morte, quando somado ao padrão cultural vigente que reconhece a autoridade dos bokor e a condição maldita dos zumbis, acaba provando à vítima e seus familiares que, de fato, aquele que fosse enterrado e por ventura avistado mais tarde vagando ou trabalhando em lavouras havia se tornado um zumbi, e isso era o bastante para que fosse proscrito da sociedade.
O processo descrito em seus livros (The Serpent and the Rainbow,1985 e Passage of Darkness: The Ethnobiology of the Haitian Zombie, 1988)acontece a partir de um estado inicial de morte, com animação suspensa, seguido pelo re-despertar, normalmente depois de ser enterrado, em um estado psicótico. Davis sugeriu que a psicose induzida por drogas e pelo trauma psicológico de ter sido enterrado, reforçavam as crenças culturalmente aprendidas e levavam os indivíduos a reconstruir sua identidade como a de um zumbi, uma vez que, após a experiência a que eram submetidos, eles passavam a “acreditar” que estavam mortos e não teriam mais outro papel para desempenhar na sociedade haitiana. Segundo Davis, os mecanismos sociais de reforço desta crença serviam para confirmar para o indivíduo a sua condição de zumbi e tais indivíduos passavam a ser conhecidos por passear em cemitérios, exibindo atitudes e emoções deprimidas.
Dessa forma, o composto narcótico, aliado a uma estrutura cultural e religiosa, garantia a esses feiticeiros-exploradores acesso a manufatura de escravos que jamais se insurgiriam, e esses, completamente desumanizados, viam-se submissos ao poder de seus senhores e submetidos a efeitos que suprimem sua própria força de vontade, autonomia, memória e identidade.
A teoria de Davis é que a cultura e a crença fazem com que alguns haitianos acreditem ser zumbis após se recuperarem dos efeitos do pó. Alguns sacerdotes dizem que a alimentação de um zumbi inclui uma pasta de Datura stramonium, conhecida localmente como “pepino de zumbi”. Chamada de “erva jimson” nos EUA e de “figueira do diabo” no Brasil, essa planta provoca febre, alucinações e amnésia, aumentando potencialmente a crença da vítima de que houve uma transformação e contribuindo para o trabalho de controle e dominação psicológica exercida pelos bokor.
Esse estudo sobre os processos formadores dos Zumbis da vida real nos faz levantar outra reflexão neomitosófica acerca do tema: A relação entre a Desmorte e a Emoção, ou como o estado emocional a nutre, define e troca com a condição desmorta. Decerto, o grande drama dos filmes de zumbi envolve o sacrifício de entes queridos que já não mais respondem a nenhum estímulo emocional. Tornam-se monstros por, além do aspecto mórbido e a voracidade irracional, não sentir emoção alguma.
Em A Noite Mais Densa, saga dos Lanterna Verde publicada atualmente pela DC Comics, há uma relação intrínseca entre os Lanterna Negros (que evocam uma epidemia desmorta de proporções cósmicas) e o uso combativo das emoções empreendido pelos patrulheiros espaciais de diversas tropas, cada qual primando por uma emoção: Lanterna Verde – Força de Vontade; Vermelha – Ira; Amarela – Medo; Azul – Esperança; Violeta – Amor e assim por diante. A partir disso é possível estabelecer uma ligação entre a condição desmorta e o vampirismo psíquico, teoria na qual se supõe que determinadas pessoas são capazes de drenar energia emocional de outras, esvaziando-as, inoculando depressão e apatia por meio de um convívio igualmente nocivo e sedutor.
Dessas reflexões, observamos que há uma fórmula de conivência social subtraindo a vida das pessoas, sem necessariamente exterminá-las. Usurpando de sua energia. Dominando sua vontade. Convencendo-os de que o vagar sem fim, a fome sem fim, a não-vida sem fim é algo desejável. Dessa fórmula, nos parece que subserviência, servidão e obediência são elementos importantes da equação. E afinal, a fome de cérebros pode significar uma patologia exagerada de compensação para um não uso da mente, da reflexão, do exercício da autonomia.
A sociedade pós-moderna nos diz: “Vivam Intensamente! Vivam ao extremo! Vivam para o agora, porque o amanhã reserva apenas velhice e morte em potencial”… e desse hedonismo cego um número cada vez maior de pessoas dilui identidade na individualidade, comunidade na convivência nuclear epidêmica, amor na sexualidade vã e compulsória. Nosso objetivo não é bradar moralismos inquisidores, nem caçar demônios ou condenar o sexo e a paixão. Não iremos apontar para o quanto o vício é demolidor da força de vontade ou retomar que o crack e a heroína transformam pessoas em bonecos, chupando em becos por outra dose, dizendo sim, aceitando toda e qualquer violência. Mas pensemos, nos indaguemos, se eventualmente a ambição por um aumento, por uma promoção não gera esse mesmo tipo de comportamento autômato… Se o desejo de consumo, seja ele em becos, guetos ou shoping centers, não tem o poder de converter alguém no mesmo tipo de besta faminta. Que se esvazia a cada novo banquete.
Afinal, talvez toda essa recente febre de zumbis em filmes, séries, HQs e manifestações públicas não seja uma urgência em convocar as pessoas para priorizar os elementos básicos para sua sobrevivência. Não é isso que pretende Max Brooks? Sensibilizar as pessoas para prepararem-se melhor? Para fortalecerem-se? Talvez o grande antagonista do sobrevivente numa hecatombe desmorta ou de um legítimo caçador de mortos inquietos não seja os mortos-vivos em si, mas o sofá, a internet e o ar condicionado, que transformam o homem moderno num arremedo pálido, flácido e fraco; vergonhoso aos olhos de seus antepassados, esteja ele na cultura que for. A civilização enfraquece. O conforto acelera o apodrecimento e a decomposição.

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